A PHRÓNESIS: VIRTUDE INDISPENSÁVEL PARA A OBTENÇÃO DA EUDAIMONIA



A PHRÓNESIS:  
VIRTUDE INDISPENSÁVEL PARA A OBTENÇÃO DA EUDAIMONIA 

  

RESUMO 

Pretende-se abordar a phrónesis em relação à eudaimonia, a partir da apresentação do conteúdo moral existente na obra Ética a Nicômaco de Aristóteles. Como primórdio, analisa-se a phrónesis, virtude dianoética facultativa, como garantia da excelência das ações, explicitando as suas características e classificação. Aprofunda-se a relação estreita que tem a phrónesis com as virtudes morais e a metafísica, e se conclui com a relevância que tem a phrónesis, pela concessão de meios corretos e verdadeiros para obter a eudaimoniaque é o exercício das próprias possibilidades do homem. 

INTRODUÇÃO 

O homem sempre tende a buscar uma vida feliz. Entretanto, para alcançar a felicidade, precisa encontrar os meios necessários que o conduzam a ela, e, esses meios são, intrinsecamente, frutos das deliberações corretas, embora fazer escolhas corretas pareça ser uma das tarefas mais árduas. Assim, apresenta-se a phrónesis, termo grego que não tem tradução exata, mas é entendida por prudência ou sabedoria prática.   
O itinerário de estudo seguido é apenas bibliográfico, cimentado pelo livro de Aristóteles denominado Ética a Nicômaco e apoiado em alguns comentadores dessa obra como Pierre Aubenque, Enrico Berti, Giovanni RealeBattista Mondin e Guillermo Fraile 
Para uma melhor leitura foi dividido o trabalho em três tópicos ou itens. Parte-se da definição aristotélica da phrónesis como excelência do agir humano e expõem-se a discrepância com as disposições morais, acentua-se a relação com as virtudes morais e a metafísica, e por fim, procura-se aclarar a função e relevância da phrónesis para chegar à felicidade.   

1 PRÓNESIS, VIRTUDE DA EXCELÊNCIA DO AGIR 

Na ética aristotélica, constantemente, trabalha-se sobre virtude, Sumo Bem e felicidade. Nesta perspectiva, deve considerar-se, primeiramente, que  

a virtude é [...] uma disposição de caráter relacionada com a escolha de ações e paixões, e consistente numa mediania, isto é relativa a nós, que é determinada por um principio racional próprio do homem dotado de sabedoria prática. (ARISTÓTELES, 2001, p. 49).  

Uma vez conhecido o que é virtude, deve-se acudir à concepção antropológica aristotélica para situar a phrónesis3. Para o Estagirita, a alma do homem divide-se em três partes: duas irracionais (vegetativa e sensitiva), que são relativas às virtudes éticas ou morais, e uma racional, a qual são pertencentes às virtudes dianoéticas. Ora, a parte racional da alma, a partir da função específica que exerce, subdivide-se em contemplativa e em facultativa: esta é a encarregada das deliberações e aquela é responsável pelas especulações. (ARISTÓTELES, 2001).   
Por sua vez, no livro VII da Ética a Nicômaco, expõe-se cinco virtudes dianoéticas pelas quais é possível atingir a verdade, estas são: arte, razão intuitiva, conhecimento cientifico, sabedoria filosófica e phrónesis. Aristóteles utilizou um método negativo de eliminação de hipóteses para construir a sua teoria sobre a phrónesis e explicitar a discrepância desta com as demais disposições ou virtudes    
Pode-se afirmar que phrónesis não é arte, já que esta é uma disposição relacionada com a produção e não com o agir. A arte “relaciona-se à criação e ocupa-se em inventar e estudar as maneiras de produzir.” (ARISTOTELES, 2001, p. 131). Entre tanto, o produzir da phrónesis tem finalidade diferente do mero ato de produzir da arte (poiesis). Por exemplo, representa arte, o fazer uma obra de caridade só por querer ajudar, mas fazê-lo porque é um ato bom em si mesmo,  é caraterístico da phrónesis.  
phrónesis distingue-se do conhecimento científico, porque este pode ser ensinado e o seu objeto pode ser aprendido. A ciência outorga convicção, porque conhece as causas dos fenômenos. No entanto, a phrónesis nem sempre sabe o porquê das coisas. Tampouco a phrónesis é razão intuitiva, já que esta é disposição da alma pela qual se apreende as primeiras causas. (ARISTÓTELES, 2001).  
O oposto  da phrónesisnão no sentido negativo, é a sabedoria filosófica (sophia), forma de conhecimento mais perfeita posto que procura conhecer as causas dos primeiros princípios e os mesmos primeiros princípios (ARISTÓTELES, 2001). Portantoesta virtude máxima do homem deve ser desenvolvida ao máximo, pois é a melhor garantia da felicidade. 
phrónesis, então, é mais do que uma disposição racional porque esta se pode deixar de usar, mas aquela não, aliás, uma vez aprendida, a phrónesis, não se esquece. (ARISTÓTELES, 2001). A phrónesis, umas das cinco e das mais excelentes, é "uma capacidade verdadeira e raciocinada de agir no que diz respeito às ações relacionadas com os bens humanos." (ARISTÓTELES, 2001, p. 133, grifo nosso). 
Sublinha-se o caráter prático da phrónesis, isto é, concernente à ação e  ao conhecimento dos particularesConsiderando isto, o jovem não pode ser sujeito possuidor da phrónesis porque ele carece de experiência, que só se adquire no percorrer do tempo. (ARISTÓTELES, 2001). Além disso, alguém que tem experiência é por vezes mais prático daquele que conhece (sábio), posto que este pode se limitar ao teórico e descuidar a especialização da prática. (ARISTÓTELES, 2001).   
É evidente que só se delibera sobre coisas contingentes e factíveis, isto é, sobre aquilo que muda e possível de ser feito, "[...] com tudo inclui, em alguma medida, também o conhecimento do universal, no sentido de que deve saber aplicar ao caso individual uma característica geral [...]." (BERTI, 1998, p. 149).  
De esta maneira aparece o silogismo prático aristotélico que se expressa no seguinte exemplo: As vitaminas ajudam a ter saúde (premissa maior), comendo frutas se adquire vitaminas (premissa menor), portanto, comer frutas ajudar a obter saúde (conclusão). (ARISTÓTELES, 2001). Considerando este silogismo, reafirma-se, ademais, o caráter intelectual, porque parte-se de princípios universais conhecidos e que são aplicados logo a uma circunstancia concreta da própria vida.  
Aparece também um modo de classificação, a phrónesis tem formas nas quais se relaciona com a própria pessoa, são: a administração doméstica, a legislação e a política (deliberativa e judicial). Assim, quem não seja phrónimos (prudente), no que se refere a seus assuntos pessoais ou familiares, por exemplo, na administração certa da economia, jamais poderá ser um político phrónimoscomo sim foi Péricles. (ARISTOTELES, 2001). Por outro lado, convém mencionar que Aristóteles aplica a phrónesis como uns dos requisitos fundamentais para o governo correto da pólis, porém, esta relação não será aprofundada, já que exige uma maior análise e não é o objetivo do presente trabalho.   
A partir das ideias expostas sobre a phrónesis parece correto verificar que ela é a garantia de agir com excelência, pois considera, antes de agir, se essa ação visa o fim mor, depois constata o momento oportuno (kairos), ou seja, as circunstancias nas quais se da o fato, as pessoas às quais implica e, por último, se o que será feito convém, faz-se nesse momento. 
        
2 RELAÇÃO INERENTE DA PRHÓNESIS COM AS VIRTUDES MORAIS E A METAFÍSICA 

Considerando que o homem tem uma única alma, embora na concepção de Aristóteles esteja divida em várias partes, todas as virtudes que homem possa chegar a ter se relacionam uns com os outros. Assim, seriam virtudes menores estreitamente ligadas à phrónesisdiscriçao, a perspicácia e o bom conselho.  
A discrição ou bom sentido (gnome) consiste em saber aplicar retamente o juízo do bom e do justo na ação prática. A perspicácia (sínesis) é a claridade e rapidez para penetrar nas coisas e nas razões do obrar. O bom conselho (eubolia) consiste na retidão da deliberação que acompanha à prudência. (FRAILE, 1956).   
Do mesmo modo, a relação da phrónesis com as virtudes morais é sumamente importante no que concerne ao agir humano com um alvo na mira. Já que a finalidade é a causa da ação, mas o vício anula essa causa, a virtude moral faz com que o objetivo maior a ser alcançado pelo homem seja certo e, da sua parte, a phrónesis leva a escolher os meios certos para atingir esse objetivo.  Ademais, visto que não é possível adquirir phrónesis sem ser bom e sem as virtudes moral, então, uma vez obtida a phrónesis, terão sido obtidas todas as demais virtudes, incluindo as morais. (ARISTÓTELES, 2001).   
Sucintamente, a phrónesis é responsável pela aproximação da parte superior com a parte inferior da alma, chamar-se-ia algo como virtude intermediária entre as virtudes intelectuais e morais. Assim, "de modo geral, Aristóteles considera o exercício das virtudes morais como um meio que facilita o exercício das virtudes especulativas." (MONDIN, 1981, p. 103). Aliás, as virtudes não existem separadas umas de outras. 
Por outro lado, em se tratando da metafísica, apresenta-se agora uma tese defendida por Pierre Aubenque, comentador francês de Aristóteles que dedicou grande parte da sua vida à reabilitação da metafísica.  Para ele, a metafísica é determinante na ética aristotélica, posto que abre caminho à ação do homem.  
"A metafísica ensina que o mundo sublunar é contingente ou inacabado. Mas os limites da metafísica são o começo da ética. Se tudo fosse claro, nada haveria a fazer, e resta fazer o que não se pode saber." (AUBENQUE, 2008, p. 281). Então, é nessa brecha existencial humana, onde o imanente é imperfeito e o transcendente perfeito, que ganha força a phrónesis. 

A filosofia seria sistemática se a estrutura do mundo fosse necessária de um extremo a outro. Mas Aristóteles depara a experiência da contingencia que é aquilo pelo qual há no mundo o acidente, isto é, o acaso. O Estagirita encontraria aí a velha inquietude grega diante da imprevisibilidade do futuro e a precariedade das coisas humanas, não querendo dominar o acaso com preces. A este problema deu uma solução claudicante que o nomeio phrónesis. Lembrou que a ação moral era uma ação no e sobre o mundo onde ela se exerce. (AUBENQUE, 2008, p. 278).   

Em poucas palavras, afirma-se o humanismo de Aristóteles: entre o saber absoluto ou perfeito e a percepção caótica da experiência, ele exorta a agir com a phrónesis, no limite da ação humana. (AUBENQUE, 2008). 
   
3 IMPORTANCIA INTRÍNSECA DA PHRÓNESIS NO ATINGIMENTO DA EUDAIMONIA   

Chegou-se agora ao ápice da questão principal observando o lugar da ética e o fim humano: 

Aristóteles exalta o homem sem divinizá-lo; faz dele o centro de sua ética, embora saiba que sua ética não é o que há de superior, que Deus está acima das categorias éticas ou, antes, que a ética se constitui na distância que separa o homem de Deus(AUBENQUE, 2008, p. 280, grifo nosso). 

Segundo os dois pontos de reflexão expostos anteriormente, surge um questionamento acerca da possibilidade de relacionar a eudamonia4 com a phrónesisEntretanto, para fazer esta constatação, primeiramente, deve-se dizer que o Sumo Bem ou eudaimonia é "[...] uma atividade da alma conforme à virtude perfeita [...]." (ARISTÓTELES, 2001, p. 36), isto é, o desenvolvimento pleno da racionalidade que lhe é específica ao homem e o diferença dos animais. 
Agora, tendo claro o que é a eudaimonia, encontra-se modos de vida pelas quais ela pode ser alcançada, ou melhor, existem certos tipos de eudamonia. 

Em primeiro lugar, consiste na atividade do intelecto conforme a sua virtude [...]. Na atividade da contemplação intelectiva. (REALE, 2012, p.122). Em segundo lugar vem então a vida conforme às virtudes éticas. Elas dizem respeito à estrutura composta do homem e, enquanto, só podem proporcionar uma felicidade humana. [...] A felicidade da vida contemplativa, ao contrário, de certa forma, leva para além do humano; realiza, por assim dizer, uma tangência à divindade cuja vida só pode ser contemplativa. (REALE, 2012, p. 123).  

Assim, Aristóteles identifica a mais perfeita eudaimonia como a contemplação de aquilo que é mais difícil de ser compreendida, a deidade. Esta atrai constante e inerentemente o homem, tanto como o seduz um objeto luminoso no meio da escuridão. No entanto, a divindade, na concepção grega é desinteressada para com o homem sendo incapaz de amá-lo, por isso o interesse ou anelo pelo divino parte do homem e não da divindade que, embora seja um dos seres mais perfeito, é apenas um instrumento de realização humana. 
     
Deixado às suas forças por um Deus demasiado distante, suficientemente visível para ser desejável, embora se mantenha demasiado distante para ser possuído, o homem está exposto, na região que habita, a um acaso, que não pode dominar inteiramente. (AUBENQUE, 2008, p. 280).   

Conhecendo o sentido da eudaimonia ante uma eventual dificuldade de atingi-la, Aristóteles esclareceu que o meio mais factível  para consegui-a é a virtude (arete), hábito de escolher o justo meio determinado pelo phrónimoscomo já foi ditoAssim, comparando-a a uma escada, a phrónesis concede ao homem a capacidade de ascender, degrau por degrau, à meta final. A phrónesis, excelência na vida virtuosa e, portanto, oferece os meios corretos para alcançar o bem, e não qualquer bem, mas o supremo: a eudaimonia.   

A imprevisibilidade do futuro abre caminho à ação humana guiada pelo conhecimento que é possível conhecer. A phrónesis representa a possibilidade e o risco da ação humana. Ela é a primeira e última palavra desse humanismo trágico que convida o homem a desejar todo o possível, mas somente o possível, e deixar o resto aos deuses. (AUBENQUE, 2008, p. 281).   

Recapitulando, a ética de Aristóteles é intelectualista, teleológica, eudaimonista e visada no bem comum dos cidadãos. O homem precisa ser phrónimos e possuir philosophia, contemplar a causa primeira das causas primeirasE é nessa combinação ideal, explicada por Aristóteles no capítulo 13 do livro VI, que e se encontrará a suma eudaimonia. (MONDIN, 1981).  

CONSIDERAÇÕES FINAIS 
   
Existia o risco de que o pensamento ficasse dispensado do agir humano e da vida na pólis, já que a metafísica que propus Aristóteles era uma reflexão tão sublime e essencialmente teórica. Assim, da metafísica que demonstra o limite humano, nasceu uma ética que acode o homem para alcançar uma vida virtuosa, paliando o perigo de desinteresse.   
Considerando isto, ao longo deste itinerário de estudo buscou-se refletir a respeito da possibilidade de que a virtude aristotélica da phrónesis seja capaz de atingir a eudaimoniaPara isto, foi construindo-se certas considerações propostas em cada um dos três tópicos e que demonstraram a metodologia para obtê-la.  
A teoria aristotélica da phrónesis apresenta-se como capacidade humana de escolher os meios adequados para realizar o seu próprio fim. Embora ela seja uma virtude eminentemente prática e ligada às virtudes morais, a phrónesis não deixa de ser dianoética, posto que, serve-se da razão para não deixar de conhecer o fim humano.  
Sem a phrónesisque contém as demais virtudes (éticas e dianoéticas), o homem não é virtuoso (condição básica para ser feliz). Embora a eudaimonia mor consista na "contemplação", a phrónesis outorga os mecanismos pertinentes para ser virtuoso na medida das suas possibilidades e limitações humanas.   
Sucintamente, o homem, para a obtenção da eudaimonia, deve: deliberar corretamente, visar o bem que trará cada ação, agir com mediedade e excelência, exercer a sua racionalidade até onde poder buscando compreender as questões mais enigmáticas. 

REFERÊNCIAS  

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Tottieri Guimarães. São Paulo: Martin Claret, 2001.     

AUBENQUE, Pierre. A prudência em Aristóteles. Tradução de Marisa LopesSão Paulo: Discurso; Paulus, 2008.  

BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Tradução de Dion Davi Macedo. São Paulo: Loyola, 1998.    

BERTI, Enrico. Novos Estudos Aristotélicos III: Filosofia prática. Tradução de  Élcio de Gusmão Verçosa Filho. São Paulo: Loyola, 2014.    

FRAILE, Guillermo. Historia de la Filosofia: Grecia y Roma. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos (B.A.C.), 1956. v.1.     

MONDIN, Battista. Curso de filosofia: Os filósofos de OcidenteTradução de Benôni Lemos. São Paulo: Paulinas, 1981. v. 1.   

REALE, Introdução a Aristóteles, Tradução de Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012. 

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