A apologia do amor: contrastes entre os valores e princípios da cidade de Deus e a dos homes na obra magna de Agostinho
A apologia do amor: contrastes entre os valores e princípios da cidade de Deus e a dos homes na obra magna de Agostinho
INTRODUÇÃO
Uma das motivações principais que o levaram escrever esta obra foi a convicção de defender a cidade de Deus ante os homens que preferem os seus deuses. Já que a cidade da Terra, na sua ânsia de domínio, torna-se escrava da sua própria ambição de domínio.
Agostinho, nos capítulos um ao vinte do livro um da Civitate Dei, censura os pagãos e apresenta, como de costume, um tratado dos bens e dos males, destacando-se a ofensa do pudor das mulheres no cativeiro, a santidade e o homicídio. Tudo isto exaltando os valos da Cidade de Deus.
1 O CRISTIANISMO NÃO É CULPÁVEL PELA DECADÊNCIA DO IMPÉRIO
Da Cidade da Terra surgem os inimigos da Cidade de Deus que culpavam-na de causar a decadência do Império, embora, muitos se fantasiavam de cristão para manter a própria vida. Afirma-se que a Providência sempre põe a prova a vida justa.
Percebe que nunca, numa guerra qualquer, os vencedores deixaram subsistir os vencidos por amor aos seus deuses. Era costume geral dos inimigos devastar as cidades vencidas, inclusive os templos. Nem os próprios Romanos vez alguma perdoaram os vencidos que se refugiavam nos templos das cidades conquistadas.
Ao invés dos deuses protegerem o povo, eram eles que tinham de ser cuidados. Assim sendo, os Romanos foram imprudentes ao acreditar que os deuses os haviam de proteger, já que até os grandes poetas denunciavam os deuses vencidos. Não obstante, entre os cristãos, as basílicas dos apóstolos livraram todos os que a elas se acolheram do furor dos bárbaros.
Assim, as crueldades cometidas na destruição de Roma são o resultado dos hábitos da guerra; ao passo que a clemência então verificada resulta do poder do nome de Cristo.
Agora, observar-se-á algumas questões expostas por Agostinho: as causas dos bens (proteção, pudicícia e santidade) e dos males (cativeiro e morte).
2 TRATADO DOS BENS E OS MALES
Quase sempre as graças e as desgraças são comuns a bons e maus. "A paciência de Deus chama os maus à penitência e o açoite de Deus aos bons ensina a paciência" (AGOSTINHO, 1996, p. 118). Ademais, a causa dos castigos que atingem tanto os bons como os maus é garantia do amor a Deus: " (...) submeta o seu próprio espírito à prova e conheça com que desinteresse ama a Deus." (AGOSTINHO, 1996, p. 124.)
Os santos nada perdem quando perdem as coisas temporais. De fato, eles "Nunca puderam entregar nem perder os bens pelos quais se tornaram bons." (AGOSTINHO, 1996, p. 130).
Sobre a questão do fim da vida temporal, afirma que a preocupação maior deve ser acerca do destino da alma depois da morte. "Efetivamente, de duas coisas que já não existem nem uma é melhor nem a outra pior; nem uma é mais longa nem a outra mais corta." (AGOSTINHO, 1996, p. 133).
Mesmo que tenha sido negada sepultura aos corpos humanos com isso de nada são privados os cristãos. Mas não por isso se devem desprezar e abandonar os corpos dos defuntos. Devem-se sepultar os corpos dos santos por piedade e carinho, por exemplo, como foi sepultado o corpo de Jesus.
No seu cativeiro nunca aos santos faltaram as consolações divinas, tal foi o caso de Jonas. Mas Régulo, ao suportar o cativeiro, nunca foi socorrido pelos deuses que adorava: "os deuses de nada servem aos seus devotos relativamente à felicidade temporal." "Como se o poder dos deuses fosse mais capaz de proteger a multidão do que o indivíduo, sendo cero que os indivíduos constituem a multidão" (AGOSTINHO, 1996, p. 144).
A morte voluntária por medo à dor ou à desonra é uma estupidez. Por exemplo, "Judas suicidou-se por causa de se um crime a ao seu crime juntou mais outro crime."(AGOSTINHO, 1996, p. 149).
Violência e paixão carnal alheias sofridas no corpo da vítima contra sua vontade não poderá manchar a virtude de espírito, por exemplo, a violação das virgens santas suportada sem consentimento da sua vontade durante o cativeiro. Então considera que "A pudicícia é uma virtude do espírito e tem por companheira à fortaleza que lhe dá ânimo para tolerar os males, mas não para consentir o mal." (AGOSTINHO, 1996, p. 151).
Exorta, "Não aconteça que, para evitarem a ferida da suspeita humana, se desviem da autoridade divina." (AGOSTINHO, 1996, p. 156). Como Lucrécia, que se matou devido à violência nela perpetrada e por temor à exclusão social.
Por fim, não há autoridade que permita aos cristãos, seja por que razão for, que voluntariamente acabem com a própria vida. "Temos de aplicar apenas ao homem as palavras não matarás nem a outro nem a ti próprio matarás pois quem a si próprio se mata, mata um homem." (AGOSTINHO, 1996, p. 158).
CONCLUSÃO
A cidade dos homens caracteriza-se pela confiança em seus deuses que não eram capazes de defendê-los, pelo orgulho exacerbado de que a sua cidade nunca acabará e pelo engano ou ilusão de se crer centro do mundo. Ora, quando foi atacada e devasta não teve melhor ideia que culpar os cristãos.
Agostinho censura a cidade dos homens, revela as virtudes cristãs e guia o seu povo. Ensina a maneira adequada de agir em certas circunstâncias e expressa a atitude ideal perante a morte e o sofrimento: não matar nem se matar, provar o amor a Deus nas dificuldades e no júbilo, manter a retidão de intenção no espírito diante do ultraje e lembrar que Deus dá a felicidade a cada indivíduo.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
AGOSTINHO, A cidade de Deus. Trad. J. Dias Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1996. v. 1.

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