A GRANDE CRISE DE 1277 NA UNIVERSIDADE DE PARIS
RESUMO
A GRANDE CRISE DE 1277 NA UNIVERSIDADE DE PARIS
Revista de Ciências da Educação. Editora Salesiana, 1999.
O Decreto de 1277
Em 1270 se condenam as primeiras proposições aristotélicas e em 1277, a condenação do bispo de Paris, Étienne Tenpier. Nesta ocasião, 219 teses ensinadas pelos mestres (até Tomás), sobretudo da Faculdade de Artes, são consideradas heréticas.
Questões como a do determinismo, da unidade do intelecto agente e a eternidade do mundo alcançam uma grande relevância. Escolhe-se a eternidade do mundo para localizar a diversidade de tendências que então se desenvolvia. Destaca-se duas posições radicalmente distintas: a tradição agostiniana cuja figura centralizadora é a de S. Boaventura e a de inspiração aristotélica para desenvolver um pensamento cristão (Alberto Magno, Tomás de Aquino e Siger Brabante).
O decreto de 1277 foi redigido por uma comissão de 16 teólogos, contando-se entre eles Henrique de Grand e nomeada por Estêvão Tempier. A iniciativa do bispo resultou de um processo quando a divulgação das obras de Aristóteles e pensadores judeus e muçulmanos provocou uma irrupção avassaladora do saber pagão. Em 1210 vem a primeira restrição e em 1215, a proibição formal. Mas todas as tentativas de impedir o estudo de Aristóteles foram infrutíferas.
O aristotelismo e a liberdade de pensamento ganharam espaço. Em 1255, os novos Estatutos da Faculdade de Artes de Paris permitem que os mestres se dedicassem livremente às especulações filosóficas. Em 1265, Aristóteles e muito lido, mas Alberto Magno já o havia lido antes.
Delineiam-se as correntes e em 1270, Tempier condena 13 proposições, extraídas das discussões sobre a eternidade do mundo, e ameaça com excomunhão a quem as ensinasse. Ás essas medidas seguiu-se uma calma na Faculdade, mas em fins de 1271, Siger de Brabante e Alberico de Reims acirrara, com intolerância, as suas posições divergentes. Em 1275, é nomeado reitor da Faculdade, o moderado Pedro de Auvernia.
Alberto Magno escreveu De Quindecim Problematibus a pedido de Gil de Lessines contra as 15 proposições. Faz uma crítica mordaz aos filósofos, mas não consegue grande resultados com seu trabalho. Gil de Roma escreve De Plurificatione Inellectus Possibilis.
São Boaventura participara da censura das ideias aristotélicas e averroistas, escrevendo textos como Collationes de Donis Spiritus Sancti em que contrapõe Siger. Mas Boaventura analisou as questões do ponto de vista teológico.
Em 1276, o papa Petrus Hispanus pediu para Tempier que o informasse do que estava acontecendo em Paris. Mas, o 7 de março de 1277, o bispo de Paris pronuncia, por conta própria, a condenação de 219 teses, incluindo 20 de Tomás. A pesar de todas perseguições, as teses averroístas encontrará defensores até o século XVII.
As condições materiais de existência e a entrada em cena de Aristóteles
No século XI, a razão principia a fazer valer seus direitos, já não basta a aceitação de verdades pela fé. Santo Anselmo afirmara que "a fé procura a inteligência". A partir daí, deu-se um esforço de compreender racionalmente o mundo.
Esta sociedade medieval assume e reelabora os valores cristãos. A Igreja fora a depositaria dos bens da cultura e do trabalho intelectual. Todas as reflexões que nasceram foram preocupações religiosas. Tomás procura mostrar que a teologia é uma ciência e viu-se envolvido com filosofia.
No século XII, com o florescimento das cidades, os estudos vão se afastando dos mosteiros. Há uma literatura profana que se desenvolve por toda parte. Mas, para os pensadores medievais será impossível fugir a esta atmosfera religiosa em que estão mergulhados. Não se faz teologia sem filosofia. A partir do século XI esse desenvolvimento é interrupto, há uma exigência social que reclama o prestígio da razão. No século XII, Abelardo dá um exemplo de como se pode aplicar a dialética ao estudo dos textos sagrados, mas, nessa época, apenas conta-se com Agostinho e Boécio.
Dentro de suas novas condições, o Ocidente cristão se torna ávido de conhecimentos, procura entrar em contato com os textos de autores antigos que os muçulmanos e os judeus leem e comentam. Os árabes tentam conciliar Platão com Aristóteles. Muçulmanos e judeus tinham a ciência. As escolas de Ocidente se multiplicam e surgem as universidades. Há um desejo de traduzi-los para o latim, surgem os tradutores. Dentro de um regime de tolerância com que os árabes da Espanha dotam a sua sociedade, é possível surgem importantes centros de tradução, com uma convivência pacífica de muçulmanos, judeus e cristãos dedicados ao estudo.
No século XIII, toda a obra de Aristóteles é traduzida para o latim.
A presença de Aristóteles no Ocidente medieval
A chegada de Aristóteles significa um momento de renovação total da ciência e do pensamento na Idade Média. Mas, não foi fácil a entrada no mundo cristão, pois a divulgação do pensamento aristotélico implicava uma concepção pagã do mundo que assustava as autoridades eclesiásticas. Iniciativas condenatórias começaram a se multiplicar. As discussões sobre o direito da fé e da razão cão sofrer sucessivos acirramentos. Sem entender a Idade Média não e possível entender o mundo moderno. Sempre que se pretende proteger os outros de pensamentos perigosos, acaba-se caindo na intolerância das medidas repressivas.
Era um mundo que utilizava cada vez mais da experiência sensível, a elaboração teórica não podia mais ignorar o papel dos sentidos na construção e na explicação do mundo, e o pensamento de Aristóteles favorecia isso. O platonismo augustinismo platonizante era a tradição. Essa era uma Europa que vivia do pouco que lhe restara e que se lamentara do que perdera. Sente-se a necessidade de se conhecer diretamente o mundo sensível, porque ele permitiria uma renovação total da vida. O empirismo aristotélico não é tradição: é o novo, por isso assusta.
Alberto Magno aceita Aristóteles, lê e interpreta os seus textos, repensando-os, como cristão. Santo Tomás consegue uma síntese original entre as teses platônicas da tradição augustiniana e elementos fundamentais da doutrina aristotélica. É um homem do seu tempo e atende às necessidades do seu tempo.
A doutrina apresentava uma constrição racional e defendia teses que pareciam incompatíveis com a doutrina cristã: um mundo eterno e incriado, um Deus que é apenas Motor imóvel e que não exerce sua providência sobre o mundo, uma alma que só é forma do corpo organizado e que não sobrevive a ele.
Em 1210, o Concílio provincial de Paris proibiu a leitura da Metafísica e a física de Aristóteles. Em 1215, a proibição é reiterada nos Estatutos da Universidade de Paris. Mas, nem todos a respeitam. Em 1231, Gregório IX, permite o ensino da Física. Em 1263, Urbano IV renova a proibição. Em 1366, a Igreja exigirá a leitura dos livros de Aristóteles.
Os árabes
Aristóteles chegou ao Ocidente medieval pelas mãos dos árabes. Quando chegaram a regiões de cultura helênica, os mosteiros cristãos eram centros de estudos de teologia e de ciências. Aristóteles era muito lido.
No século IX, surgem as grandes expressões culturais. No século XI, discute-se a possibilidade de usar a lógica para a explicação teológica.
Avicena
Avicena e Averróis marcaram mais profundamente a extraordinária elaboração intelectual dos cristãos ocidentais. Avicena preocupado em superar as contradições que possam surgir entre as investigações da razão e a verdades religiosas. O objeto principal da sua metafísica é o ser, a essência. A ideia de ser se desdobra em duas realidades distintas: o ser necessário e o ser possível. O ser necessário por sua essência não pode existir. O ser possível é o que só poderá existir se for produzido.
As coisas apreendidas pelos sentidos são contingentes, mas também podem ser pensadas como necessárias: segundo uma causa necessária que a tornou necessária. Avicena tem certeza de que a matéria existe. Uma coisa pode ser eterna no tempo ou, na essência. A existência é a que precisa de causa e não a inexistência. O mundo é eterno porque a sua causa essencial é eterna, o mundo é necessário, não em si mesmo, mas porque está associado ao Ser necessário que é a sua origem. O criador é criador do existente.
Averróis
Em Averróis concentra-se a grande parte da responsabilidade da crise de 1277. O pensamento averroísta representa, nesse momento, o rompimento com a tradição conservadora que procura resistir por todos os meios. Viu-se preso num radicalismo aristotélico, concentrava-se em restituir à doutrina de Aristóteles a sua integral pureza.
Para Avicena, a vontade divina não é como a humana, porque a vontade de Deus é um ato eterno e necessário. Se Deus é anterior ao mundo fora do tempo, então, também está fora do tempo depois de que o mundo foi criado.
A eternidade do mundo era uma discussão necessária no momento em que se procuravam esclarecer as relações mais profundas entre fé e razão.
As tendências entre os pensadores cristãos
Deus criou o mundo dentro do tempo ou fora dele?
Quanto à eternidade do mundo, Alberto sente a dificuldade da questão e conclui que não se pode demonstrar com rigor se o mundo é eterno ou não. É uma questão de filosofia.
Se o mundo foi produto da livre vontade de Deus, então foi criado no tempo. S. Tomás afirma que só pela revelação pode-se ter certeza de um começo temporal do mundo.
Boaventura parte dos princípios de que as ideias de todas as coisas estão presentes na mente divina. Deve se aceitar o que a revelação ensina: criado por Deus no tempo.
Siger de Brabante foi o grande responsável por todos os dramáticos acontecimentos que culminaram na condenação de 1277. Reivindicava um caminho independente para a filosofia, distinguindo a razão e a fé e se afastando das questões teológicas.
Acrescenta à ideia da eternidade do mundo a velha teoria do eterno retorno. A matéria em movimento está sempre dando origem a formas diversas. Este mundo passa por fases, mas não pode deixar de voltar a ser o que é. As mudanças do mundo não têm sempre a mesma natureza.
As propostas aristotélicas e averroístas não contavam com o apoio da maioria nem a sociedade estava com o apoio da maioria nem a sociedade estava suficientemente amadurecida para assimilá-las.
Os conflitos são o atestado do nascimento do novo. A questão da eternidade do mundo ficou resolvida nessa época nem hoje.
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