A vida intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos- SERTILLANGES
Fichamento
SERTILLANGES, Antonin Dalmace, A vida intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos, São Paulo: Saraiva, 1940.
CAPÍTULO I - A vocação intelectual
I – O intelectual é um consagrado
"... Uma vocação não se satisfaz com leituras vagas nem com pequenos trabalhos dispersos. Requer penetração continuidade e esforço metódico...". "...A verdade só presta serviços a quem a serve...". (p. 6). "... talhar-se um destino literário e filosófico à custa da verdade ou fora da dependência da verdade, constitui um sacrilégio...". (p. 8). "... O ascetismo especial e a virtude heroica do trabalhador intelectual deverão ser, para eles, o pão de cada dia...". "... O homem, quando constrangido, concentra-se mais, aprende a avaliar o tempo...". (p. 10). "O querer vale mais do que tudo: querer ser alguém; chegar a ser alguma coisa; ser já, pelo desejo, esse alguém qualificado pelo ideal. O resto sempre se alcança...". (p. 11). "Só lhe resta perseverar e entregar-se à vida consoante o Plano divino...". (p. 12). II – O intelectual não é um isolado
"... não deve deixar-se tentar pelo individualismo...". "... Se a solidão vivifica, o isolamento paraliza e esteriliza é inumano...". "Toda a verdade é vida, orientação, caminho em ordem alcançar o fim humano". (p. 14). "Jesus Cristo precisa do nosso espírito. Somos os seus <<membros>>, o seu espírito em participação, os seus cooperadores...". (p. 15). III – O intelectual pertence ao seu tempo
"... o pensamento espera pelos homens e os homens pelo pensamento. O mundo corre perigo por falta de máximas de vida...". "... este espírito exclui qualquer forma de diletantismo. Exclui também certa tendência arqueológica, certo amor do passado que se desinteressa das dores atuais...". (p. 16). "... A verdade é sempre nova... Deus não envelhece...". (p. 17).
CAPÍTULO II - As virtudes do intelectual Cristão
I - As virtudes comuns
"A virtude contém, em certo modo, a intelectualidade em potência, uma vez que, levando-nos ao nosso fim, que é intelectual equivale ao supremo saber". "... Para julgar com acerto, é preciso ser grande". (p. 18). "A verdade vem ao encontro dos que a amam, dos que lhe não resistem, e este amor pressupõe a virtude". (p. 19). "A virtude é saúde da alma. pensamos com todo o ser. O exercício das virtudes morais, importa sobremaneira para a aquisição da ciência". (p. 20). "A pureza do pensamento exige a pureza da alma. Guarda a pureza de consciência, não cesses de imitar o procedimento dos santos e dos homens de bem". (p. 22). "...Os grandes pensamentos brotam do coração". (p. 23).
II - A virtude própria do intelectual
"...virtude própria do homem de estudo é, evidentemente, a estudiosidade...". "... Opõem-se dois defeitos: a negligência e a vã curiosidade... (p. 24). Existem outros deveres humanos além do estudo. "Altiora te ne quaesieres", não busques mais do que podes, "Volo ut per riuulos, non statim, in mare eligas introire", resolve-te a entrar no mar pelos regatos e não diretamente... (p. 25). "... Caminhai sempre para a frente em harmonia com o que sois, levando a Deus por guia....". (p. 26). "...o estudo deve ceder o lugar ao culto, à oração, à meditação directa das coisas de Deus. Ele é um reflexo do ofício divino...". (p. 27).
III - O espírito de oração
"Orationi uacare non desinas, nunca deixes de orar, e Van Helmont assim explica este preceito: Todo o estudo é estudo da eternidade". (p. 28). "estabelecer a unidade entre os nossos atos e os nossos pensamentos e as nossas realidades primeiras". (p. 29). IV - A disciplina do corpo
"... À boa compleição do corpo corresponde a nobreza da alma...". (p. 32). "... a mudança pela qual passamos da ignorância à ciência se deve atribuir segundo S. Tomás, diretamente ao corpo e só <<por acidente>> à parte intelectual...". (p. 33). "... Alma sã no corpo são: eis o ideal de sempre...". (p. 34). "O amigo do prazer é inimigo do seu corpo e depressa se torna inimigo da sua alma. A mortificação dos sentidos é requerida para o pensamento ...". (p. 36).
CAPÍTULO III - A organização da vida
I – Simplificar
"A fim de que, em vós, tudo se oriente para o trabalho... simplificai". "Um certo ascetismo constitui ainda, sob este aspecto, o dever do pensamento...". (p. 38). "O que favorece a vossa obra é sempre oportuno; o que a entrava e dificulta deve ser excluído..."(p. 39)."As divisões ocasionadas pela incompreensão da alma irmã são fatais à produção; introduzem no espírito uma inquietação que o corrói...". (p. 40). II – Guardar a solidão
"O ponto essencial a salvar na organização da vida e em vista do qual tudo o mais se adopta, é o arranjo exterior e interior da solidão". "Evita acima de tudo as voltas inúteis. Ama a cela, se quiseres ser introduzido na adega...". (p. 42). "O retiro é laboratório do espírito; suas asas, a solidão interior e o silêncio. As grandes obras foram preparadas no deserto...". "Os mais belos cantos da natureza ressoam de noite..."(p. 43). "A que vieste, perguntava a si próprio S. Bernardo no claustro: ad quid venisti...". "Sem retiro não há inspiração...". (p. 44). "... a cela bem guardada torna-se suave: cella continnuata dul-cescit..."( p. 46).
III – Cooperar com os seus iguais
"Jesus mostra-nos bem como se pode viver vida interior e ao mesmo tempo dar-se aos outros, ser todo para os homens e viver todo em Deus...". (p. 47). "A amizade é maiêutica que extrai de nós os mais ricos e íntimos recursos...". "Em todo o caso, mesmo no isolamento maternal, buscai em espírito a sociedade dos amigos da verdade". "A unanimidade consiste em esforçar-se, cada qual, com o sentimento de que outros se esforçam de modo que se leve por diante uma tarefa, orientada por um só princípio de vida...". (p. 50). IV – Cultivar as relações necessárias
"...Sempre que se procede bem, conforme a situação atual, faz-se bom uso da vida". "... Fazei o que deveis e o que for preciso: se a vossa humanidade o exigir, ela saberá arranjar-se...". (p. 51). "A sociedade é livro para ler, embora livro banal. A solidão, obra-prima". "...o segredo do intelectual se guardar ao mesmo tempo que se comunica...". (p. 53). V – Conservar a dose necessária de ação
"...Convém dosear sempre a vida interna e a externa, o silêncio e o ruído". "... O pensamento e a ação têm um Pai comum". "...reservar parte do tempo e do coração para a vida ativa, por pequena que seja". (p. 54). "... mas o silêncio exagerado causa também agitação...". "...daí a necessidade de diversão para a vida cerebral a necessidade do calmante da ação...". "... a necessidade de nos firmamos no real que o real é o fim último do juízo e o fim deve iluminar ao longo do caminho..." ( p. 55).
"... o real é uma espécie de infinito que nenhuma análise racional pode esgotar ...". O individual é inefável. O individual é o real...". (p. 56).
VI – Manter o silêncio interior
"... o estado de solidão é mãe das obras...". " Um intelectual deve ser intelectual todo o tempo...". "A glória de Deus é, para ele, a verdade...". (p. 58). "...Tende a inspiração interior, a discrição, o amor daquilo a que vos dedicastes, tende convosco o Deus da verdade e, embora sozinhos, estareis em pleno universo..." ( p. 59).
CAPÍTULO IV - O tempo do trabalho
I - O trabalho permanente
"É preciso orar sempre equivale a afirmar: é preciso desejar sempre as coisas eternas (...)". (p. 60). "(...) compreender que a verdade está em toda a parte, mas que ele deixa passar em vão(...)." (p. 62). "(...) Qualquer fato pode gerar um sublime pensamento. Em toda a contemplação há oportunidade de reflexões sem fim(...). " (p. 63). "(...) os grandes homens só são grandes após a morte. Em vida, quase ninguém repara neles (...)." (p. 65). "(...) a mais humilde ocupação é o prolongamento da mais sublime (...)." (p. 69).
II - O trabalho noturno "(...)não excluamos do trabalho permanente as horas de letargia e de trevas(...)" (p. 69). "(...)O sono, que trabalha sozinho, trabalha sobre matéria preexistente; não cria coisa alguma; hábil em combinar e em simplificar, em levar a termo, só opera sobre os dados da experiência e o labor diurno (...)". (p. 72). "(...) Não, é preciso dormir; é indispensável o sono reparador. (...)" "(...)O repouso não é morte; é vida, e toda a vida produz frutos(...)." (p. 73).
III – A madrugada e os sermões
"A manhã é sagrada. De manhã, a alma refrescada considera a vida como dum píncaro, onde ela se lhe mostra inteiramente (...) a nossa tripla vocação de homens, de cristãos e de intelectuais(...)". (p. 74). "(...)o complemento dum trabalho contínuo, como nós o requeremos, é tanto um princípio como um termo. Ninguém fecha senão para tornar a abrir (...) e manhãzinha, é preciso começar logo a viver (...)". (p. 77). "(...) restaurar em nós a vida orgânica e a vida sagrada, por um feliz repouso, pela oração, pelo silêncio e pelo sono" (78).
IV - Os instantes de plenitude
"(...)determinar a maneira de defender a cela interior contra a invasão que a ameaça (...)" (p. 79). "(...)Evitai, mais que tudo, o trabalho a meias (...). É preferível encurtar o tempo e tratá-lo em profundidade, pois só assim o valorizareis. Fazei alguma coisa ou não façais nada(...)" (p. 80). "Abrir-se assim à verdade, abstrair de tudo o mais. Quem conhece o valor do tempo, sempre o encontra em abundância, eleva-o (...)" (p. 81). "(...)não há que temer egoísmos, quando nos isolamos em benefício desta universal benfeitora dos homens(...)" (p. 83).
CAPÍTULO V - O campo do trabalho
I – A ciência comparada
"(...)ciência comparada o alargamento das especialidades pela aproximação das disciplinas conexas e a subordinação das mesmas e do seu conjunto à filosofia geral e à teologia(...)"(p. 84). "(...) Abstrair não é mentir, reza o provérbio: abstrahere non est mentiri(...). Todas as ciências são interpendentes(...)". (p. 85). "(...) As ciências, sem a filosofia, desclassificam-se e desorientam-se. As ciências e a filosofia, sem a teologia, desclassificam-se(...)". (p. 88). "(...)intelectual ou desejoso de o ser, aspire à intelectualidade completa, em todas as suas dimensões. (...)"(p. 90). II – O tomismo, quadro ideal do saber
"(...) Quot articuli, tot miracula.(...) O tomismo é síntese. Nem por isso é ciência completa"(p. 94). A filosofia e a teologia como uma só e mesma investigação. Chegando assim a superar o soplismo orgulhoso e a modernidade sem base eterna. (p. 96).
III – A especialidade
¨(...) O espírito enciclopédico é inimigo da ciência¨. A ciência é conhecimento pelas causas (p. 97). A vida intelectual não deve ser acrobacia permanente. Uma vez ciente da sua vocação especial fixar-se nela. Há um perigo, contentar-se com pouco (p. 97). É preciso compreender tudo, mas com o intuito de chegar a fazer alguma coisa. (p. 98). IV – Os sacrifícios necessários
"(...) é forçoso submeter-se e contentar-se, naquilo que o tempo e a prudência vos subtraem, com um olhar de simpatia que também é homenagem à verdade (...)". (p. 98). Não julgueis, portanto, que tudo vos é possível. Medi as forças, medi a tarefa. (p. 99).
CAPÍTULO VI - O espírito do trabalho
I – O ardor da investigação
"(...)(...)"um espírito de zelo. Tira sempre as dúvidas (p. 100). Tu, oh Deus, vendes os bens aos homens pelo preço do esforço. O espírito do homem pode chegar ao infinito, só a preguiça põe limites à sua sabedoria e às suas invenções. Saber, buscar, saber de novo e recomeçar para buscar ainda mais, nisto se resume a vida do homem consagrado à verdade (p. 101). A morte o limitará, e também a sua impotência, sempre esforçar-se. (p. 102).
II – A concentração
"(...) Nada mais funesto do que a dispersão (...)"Empreendei cada tarefa como se fosse a única. É preciso deixar cada coisa a si própria, fazê-la no tempo devido. (p. 103).
A tenacidade em trilhar o mesmo caminho e a persistência em o retomar, seguidas de repousos oportunos, isto é, depois de completa a primeira fase da ação, é o meio de produzir ao máximo. (p. 104). O filósofo digno de tal nome nunca afirmou se não uma só coisa. concentrar-se em obediência a uma estrita disciplina (p. 106)
III – A submissão à verdade
"(...) Obediência pronta requer de nós a verdade. (...)". A inteligência, que se não dá, vive em estado de cepticismo. Descoberta é o resultado da simpatia, e quem diz simpatia diz dom. Pelo pensamento encontramos alguma coisa, não a fazemos. A humildade é o olhar que lê no livro da vida. Deus é a causa primeira e o fim último da intelecção. a nossa força intelectual é proporcional à nossa receptividade (p. 106). Não repares donde vêm os ensinamentos, mas confiai à memória tudo o que se disser de bom (p. 108). O superior é o que se encontra mais perto da verdade e por ela se deixa iluminar. (p. 109).
IV – Alargamentos "(...) Um problema nunca pode encerrar-se em si mesmo; trasborda sempre(...) A verdade é una; tudo depende da Verdade suprema". (p.110). Chamo concentração a convergência da atenção para um ponto; chamo alargamento o sentimento de ser este ponto o centro dum vasto conjunto, centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma. (p. 111). Os grandes homens possuem visão larga, mas os seus resultados afiguram-se-lhes pequenos. Por isso é preciso lê-los, com espírito não literal, mas com espírito amplo. (p. 113).
V – O senso do mistério
"(...)Quem julga compreender tudo, prova que nada compreende. (...)" (p. 113). Não alimentemos a presunção de desejar que chegue depressa este elevado desespero. (p. 114). Estudar é precisar algumas condições, classificar alguns factos. O mistério é, em todas as coisas, a luz do que se conhece. Tudo depende de tudo. (p. 115).
CAPITULO VII - A preparação do trabalho
A. – A LEITURA
I – Ler pouco
"(...) a leitura é o meio universal para aprender, e é a preparação próxima ou remota para toda a produção(...).". devemos correr para o mar por meio dos regatos, e não de repente¨(p. 116).
Leia-se com inteligência, não com paixão. O trabalhador, senhor de si, lê com calma e suavidade somente o que quer reter, só retém o que deve servir. (p. 117). Lede unicamente, exepto nos momentos de distração, o que respeita ao fim em vista, e lede pouco, para não devorar o silêncio. (p. 119).
II – Escolher
"(...)Muito discernimento é preciso para escolher o que há de nutrir o espírito e servir de semente dos pensamentos. (...).". Ler só obras de primeira mão, onde brilham as ideias mestras. (p. 119). Gostai dos livros que encerram as verdades eternas. Sendo o livro um irmão mais velho, é mister honrá-lo, buscar o grão da palha. (120).
Escolhei o melhor que puderdes; mas procurai que tudo seja bom, largo, aberto ao bem, prudente e progressivo. (p. 121). III – Quatro espécies de leitura
Há leituras de fundo, leituras de ocasião, leituras de estímulo ou de edificação, leituras de repouso. Requerem docilidade, mestria, ardor e liberdade. (p. 121). É preciso acreditar no professor. Não se aprende a arte de mandar sem obedecer. Ninguém é infalível; mas o aluno é-o muito menos do que o mestre. (p. 122). Ter assim, nos momentos de depressão intelectual ou espiritual, autores favoritos, páginas reconfortantes, tê-las à mão, é recurso incomparável. (p. 123). Lede o que agrada, mesmo quando vos distraís, tende a inteligência de ler, de proveito o que for útil de a ser homem. (p. 124).
IV –O trato como gênio
"(...) Após os génios vêm logo aqueles que lhe reconhecem o valor(...)." Relembrar é folhear títulos de nobreza (p. 125). Reside em nós a Alma universal, que só espera que nos adaptemos a Ele para desabrochar em discursos divinais. Deus, o primeiro autor de tudo o que se escreve (V. Hugo). (p. 126). Um homem superior, porque reflete a comum humanidade, reduz ao essencial as aquisições dessa humanidade, O génio estimula e desperta a confiança. (p. 128). Diretamente, só somos devedores de verdade; indiretamente, devemos, aos que erram, o acréscimo de formação que, por intermédio deles, a providência nos proporciona. Quem tropeça sem cair, dá um passo avante. (p. 129). V – Conciliar em vez de opor
Para tirar proveito das leituras é indispensável começar por conciliar os seus autores e não os opor. O método por contraste (p. 130). É uma espécie de profanação, sobretudo a respeito dos homens superiores, tomar atitudes de disputa. (p. 131). É trabalho muito mais fecundo aplicar-se à reconstituição da verdade integral através das deformações do que passar o tempo a criticá-las. (p. 132).
VI – Assimilar e viver
"(...) o trabalho é vida, a vida é assimilação, a assimilação é reação do organismo vivo perante o alimento (...)." Quem não assimila o que aprende em frequentações dóceis nunca chegara a instruir-se. (p. 133). Só entramos na intimidade dos génios, participando na inspiração deles (p. 134). Intelectualmente, em virtude da herança secular, nascemos velhos; tratemos de morrer jovens. Quando só se fala do que se leu ninguém nos lê. O homem é múltiplo, e nós somos homens; Deus está em todos: honremos em nós o homem e respeitemos no homem a Deus. (p. 137).
B – A ORGANIZAÇÃO DA MEMÓRIA
I – Que se deve reter?
"(...)a memória ampla e tenaz é recurso precioso.(...).". Arquiva no escrínio do espírito tudo o que puderes, como quem quer encher um vaso. Sobrecarregar a memória prejudica o pensamento e a atenção. (p. 138). Arquivai o que possa ajudar a responder o vosso fim. Não vivemos da memória, servimo-nos da memória para viver. Felicidade não desejar senão o bem e ter tudo o que se deseja. (p. 139). Repetir algumas fórmulas cheias de seiva crista. (p. 140).
II – Por que ordem reter?
"(...) A memória não deve ser caos.(...)." O primordial, o fundamental, o simples eis o que sustém a memória. (p. 141). A faculdade criadora depende, em grande parte, da sabedoria e da sobriedade da Memória. basta que estabeleça em si, graças à memória, uma estrutura correspondente que lhe permita adaptar-se e desse modo agir. (p. 143).
III – Como reter?
"(...)São quatro as regras: ordenar, aplicar, meditar e reminiscência (...)."(p. 143). Se quereis reter, atendei as ligações e às razões das coisas concentrai-vos e estai presentes a vós próprios; repeti no íntimo (p. 144). Tratando-se dum livro, não o fecheis sem que o possais resumir e apreciar. Retém-se mais facilmente o que prendeu a atenção. (p. 145). O que importa à memória é a sua qualidade, a sua ordem e finalmente a habilidade do seu emprego. O interessante é o espírito do homem. (p. 146).
C. – AS NOTAS
I – Como tomar notas
"(...) Leitura, memória e notas constituem uma só (...). A memória é infiel. solução é o caderno de notas. seria preciso um domínio de si próprio que nenhum mortal possui" (p. 147). Duas espécies de notas, correspondentes à preparação remota ou preparação próxima do trabalho. sempre de caneta na mão. quando tomais notas com o intuito de produzir, seguem de perto o objeto visado (p. 148). As notas assim compreendidas representam um trabalho rendoso, cujos frutos recolhereis nos momentos que qualificamos de plenitude. (p. 152). II – Como classificar as notas 152
Na ciência a ordem é pensamento (p. 152). A ordem é uma necessidade, mas é ela que tem de nos servir e não nós a ela. (p. 153). É preciso ser realista e não perder o tempo em estabelecer divisões a priori, que de nada serviriam. Uma vez ordenadas, sem custo as encontrareis na hora do trabalho. (p. 154).
III – Como utilizar as notas
"(...) Distingui com um número as fichas correspondentes ao mesmo assunto; classificai e empacotai, como há pouco dissemos, e a redação está preparada(...)." (p. 156).
CAPÍTULO VIII - O trabalho criador
I – Escrever
"Escrevemos primeiramente para nós(...)." (p. 156). "(...)o começo é mais que metade duma coisa(...). O estilo forma-se escrevendo" (p. 157). "(...)O estilo é verdadeiro quando corresponde a uma necessidade do pensamento e quando se mantém em contato íntimo com as coisas (...)." (p. 158). Escrever verdade é revelar que consiste em colocar-se ardentemente diante das coisas, até que elas vos falem e determinem os termos que as devem exprimir. (p. 159). Um estilo completo é o que alcança todas as almas e todas as faculdades das almas (p. 162). II – Desapegar-se de si e do mundo
"(...) Quem quer alguma coisa para seu proveito afasta a verdade. servi-a, não vos sirvais dela (...)." (p. 164). A verdade é essencialmente impessoal. (p. 165). Escutemos como a criança escuta e escrevamos como a criança fala (p. 167). III –Constância, paciência e perseverança
A constância mantém-se a pé firme, a paciência suporta as dificuldades, a perseverança evita o gasto da vontade. (p. 167). Pediram um dia a Edison que dissesse a uma criança alguma palavra que lhe ficasse gravada. Meu menino, nunca olhes para o relógio. (p. 168).
Uns momentos de leitura dum autor favorito, modificar o estado orgânico e para libertar o espírito, alguns movimentos rítmicos: eis os remédios possíveis. Após o quê, voltai à carga. (p. 170). A grande regra consiste em esforçar-se muito para criar coisas que parece não terem custado nada (173.) A arte de pensar é morosa a desproporcionada à nossa coragem habitual, porque é longa: ars longa, uita breuis. tudo se alcança com tempo e paciência. (p. 174).
Perseverar é querer; quem não persevera, não quer, projecta. Devagar se vai ao longe (p. 175).
IV – Fazer tudo bem feito e até ao fim
"(...)Acabado significa terminado, mas significa também perfeito, e ambos estes sentidos se corroboram. Esgotaram-se-me as posses; que Deus e o próximo me perdoem as deficiências. Qual potui feci: ueniam da mihi, posteritas (...)." (p. 178). Ter uma vocação é ter a obrigação do perfeito. a cobardia de hoje é má garantia para o heroísmo de amanhã. (p. 179).
V – Não ir além das próprias forças
"(...) Altiora te ne quaesieris, não tentes coisa maior às tuas posses(...)." (p. 180).
É grande a obra que for exactamente medida. 0 conhece-te a ti mesmo de Sócrates encerra a chave de toda a vocação, visto que ser chamado a alguma coisa é ver abrir-se, diante de si, um caminho na amplidão da vida humana. (p. 181).
CAPÍTULO IX - O trabalhador e o homem
I – Guardar o contato tom a vida
"(...) O que mais importa à vida é o carácter(...)." Para o pensamento e para a prática, é índice seguro o saber avaliar o valor relativo das coisas. A finalidade do estudo consiste em promover a extensão do nosso ser (p. 182). É preciso ser sempre mais do que se é. (p. 183). A música tem de precioso para o intelectual o não determinar nem perturbar coisa alguma. Tudo reside na harmonia e tudo se regenera. (p. 185). Não volteis as costas ao resto da vida, por causa do estudo. Recusai ser cérebro despegado do corpo e homem diminuído na alma. Não convertais o trabalho em monomania. O necessário, em todo o momento, é estar onde se deve e fazer o que importa. (p. 186).
II – Saber distrair-se
"(...) Cortem-se os excessos. A intemperança é pecado porque nos destrói, e temos a obrigação de poupar a vida porque temos a obrigação de viver (...)." (p. 187).
Estudar tempo de mais é uma maneira de preguiça (p. 188).
O melhor meio de repousar seria ainda equilibrar o trabalho de maneira que uma operação servisse de descanso a outra. Na intelectualidade, nem tudo é concentração esgotante (p. 189). Sem verdadeiro repouso, não há verdadeiro trabalho, reina a desordem. O verdadeiro repouso da alma é a alegria, a ação deleitável (p. 190). Trabalho, oração, e amizade.
III – Aceitar as provações
"(...)Só encontro uma resposta a todas as críticas, entregar-me de novo ao trabalho(...). Corrigir-se e calar-se, O valor defende-se a si próprio. (p. 192). O verdadeiro sábio procura penetrar as significações. A grandes almas sofrem silenciosamente. (p.193). As coisas valem na proporção que custam. O trabalho em si é valor (p. 194). IV – Saborear as alegrias
"(...)Exulto de alegria no meio das tribulações(...)." (p. 195). A recompensa de uma obra é o concluí-la; a recompensa do esforço é o ter crescido (p. 196). A verdade é a santidade do espírito; conserva-o, do mesmo modo que a santidade é a verdade da vida e tende a fortificá-la para este mundo e para o outro. (p. 197).
V – Gozar antecipadamente os frutos
"(...) Seguindo este caminho produzirás, na vinha do Senhor, folhas e frutos úteis todo o tempo da vida. Praticando estes conselhos, alcançarás o que desejas. Adeus (...)." (p. 197).
Comentarios
Publicar un comentario