ASPECTOS FILÓSOFICOS DO FILME "O NOME DA ROSA": UMA HERMÉUTICA DA MISTIFICAÇÃO DA IRRACIONALIDADE
UMA HERMÉUTICA DA MISTIFICAÇÃO DA IRRACIONALIDADE
O filme, inspirado na obra de Eco, igualmente titulada, abre ao espectador uma ampla variedade de interpretações possíveis. A trama, encoberta de simples romance, apresenta a figura o franciscano intelectual Frei William quem, junto com o jovem noviço que narra a história, desvela os "mistérios" acontecidos na abadia beneditina. De conhecimento basto em Aristóteles e Tomás de Aquino, William tinha formado uma mente crítica, distinguindo-se dos demais frades e monges que fantasiavam seus crimes como obras do Demônio ou persuadiam os outros a acreditar o cumprimento de profecias do apocalipse.
O temor às consequências que poderiam causar a leitura das obras de Aristóteles e dos outros autores proibidos motivou a esconder esses escritos. Perceba-se como a tradição agostiniana tinha grande força nessa cultura, criando uma rejeição natural a qualquer tentativa de mudança. A questão chave dessa história é um livro proibido, titulada "A segunda parte da poética" de Aristóteles, que foi protegido, causando inclusive a morte de aqueles que o leram.
As trevas e o ambiente escuro, que permanecem durante quase todo o tempo do filme, reflexam a recôndita fatalidade presente em cada espaço da fortaleza tida como mosteiro. A biblioteca era o lugar onde mais luz percebe-se, simbolizando a fonte do conhecimento.
Ao desmitificar os acontecimentos ressaltam alguns fatos: os "escândalos sexuais", a hipocrisia de alguns religiosos e a injustiça nas condenas da Inquisição.
Mencionou-se a possível condenação dos franciscanos como movimentos hereges. Isto se deu porque naquela época ia crescendo o número de movimentos de infiéis e os franciscanos, por pregar o Evangelho como única regra de vida e viver como mendigos, eram confundidos com os hereges com os que compartiam alguns traços comuns.
A proibição de dar risada, gritar marcava a seriedade e a rigidez do lugar. Dava-se leitura constante de aquilo que não deve ser feito. O objetivo era persuadir aos outros dos efeitos do mal, condenando os outros a ser escravos da própria ignorância e atemorizá-los criando suspenso.
Os monges jogavam comida, como a cachorros, para os pobres que moravam perto do mosteiro. Destaca-se uma mulher que, forçada pela sua condição de pobreza extrema, mantinha relações sexuais com alguns monges por troca de comida. Foi assim que se deu um romance entre o jovem noviço e essa mulher. Ao final do drama, perante da condena, a mulher se salva por meio de uma prece à Virgem Maria feita pelo noviço.
Evidencia-se a corrupta e absurda intervenção do Tribunal da Inquisição que condena sem argumentos lógicos, influenciados por mitos como bruxaria e total atividade demoníaca. Condenava-se de heresia até a quem defendesse a algum inocente ou falasse a verdade que não convinha aos superiores.
Assim, surge uma questão: como é possível que, em nome de Deus ou para manter limpa dignidade divina, se assassinou pessoas inocentes? Veja-se como a extrema limitação intelectual levou a cometer disparates sem limites.
Nas cenas finais, o fogo consume a maioria das obras, isto é, a destruição voluntária de talvez uma relíquia, simbolizando o ódio pelo saber reflexivo. Mas o William consegue resgatar das chamas algumas obras, ariscando a sua própria vida por amor ao conhecimento verdadeiro.
Por último, o jovem noviço encontra-se com a mulher, mas ele decide seguir o seu mestre. O rosto dessa rosa nunca mais se apagaria da sua memória, embora não soubesse o nome dela.
Por outro lado, uma inquietude mais subjetiva nasce: parece incomum que um franciscano, e não um dominicano, siga uma linha mais aristotélico-tomista, visto que São Boaventura, superior da ordem franciscana e de uma linha agostiniana, opunha-se à corrente do Doutor Angélico. Embora nada impeça ter uma mente aberta, isto é apenas uma suposição.
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