IDENTIDADE PESSOAL E IDENTIDADE NARRATIVA
Ricoeur discute o problema da identidade pessoal em "O si mesmo como um outro". A discussão se estabelece por meio do confronto entre mesmidade e ipseidade. A identidade como mesmidade, para Ricoeur, é o idem: um conceito de relação que só vinculada ao tempo é que pode ser avaliada. A identidade como ipseidade é individual e única. A ipseidade não é a mesmidade e vice-versa. A fim de entender a identidade pessoal não se pode prescindir, no entanto, da identidade narrativa, tampouco da diferença entre essas duas instâncias. Essas duas são vertentes da identidade pessoal, as quais se articulam por meio da identidade narrativa.
Divide a discussão em três estudos e apresenta dois modelos de permanência no tempo: caráter e palavra considerada.
Da problemática da ipseidade e da mesmidade resultam três tipos de avaliação da identidade: numérica, qualitativa. E a continuidade ininterrupta – critério substitutivo da similitude. As mudanças ameaçam; o tempo apaga, mas nenhum dos dois desfaz o ipse do sujeito. O que permanece são fragmentos de relações entre ocorrências a respeito de um mesmo sujeito. Não o sujeito. Tais fragmentos são o si, isto é, o ipse, como um outro; como uma representação. Daí resulta que não há uma permanência do si no tempo, uma vez que esse empreende um fator de dessemelhança entre o si e o mesmo. As identidades na narrativa, por essa razão, são desdobramentos de um “eu” que ao voltar-se para si-mesmo termina escrevendo a sua história de vida como um outro.
Permanência no tempo: Quando há a recoberta do ipse pelo idem ocorre a permanência do caráter. Por outro lado, quando o si é diferente do mesmo, ambos se afastam. O caráter de um sujeito é entendido como o imutável absoluto e permite que se reconheça um indivíduo.
Os hábitos de um sujeitodão uma historicidade ao caráter. O caráter identifica o si como único e individual. Singulariza o ipse. O caráter, pois, é ao mesmo tempo fator de individuação (ipse) e mesmidade-semelhança (idem). O caráter também pode ser tematizado como disposições adquiridas. A identidade de uma pessoa, nesse caso, é feita de “identificaçõescom”. Um sujeito espelha-se no outro (um herói, por exemplo) e a partir disso reconhece-se consigo mesmo. Há, como se pode ver uma instabilidade na caracterização do ipse e do idem. Da mesma forma que constitui fator de similitude, também constitui elemento de diferença. O caráter em si possui a ambiguidade da temporalidade que o ampara. O caráter, e seus atributos, portanto, definem a mesmidade.
A identidade, aqui, depende das relações de alteridade as quais se criam entre diferentes instâncias do si ao longo da(s) sua(s) história de vida.
Paradoxo da mesmidade: Ricoeur apresenta esses dois modelos de permanência no tempo, para finalmente discutir um terceiro e mais importante: a identidade narrativa. A essa vincula-se mais diretamente o segundo modelo dado, ou seja, o da palavra dada. A identidade narrativa oscila entre as duas polaridades. Um inferior, em que a permanência no tempo exprime a confusão do idem e do ipse. Uma superior, em que o ipse coloca a questão de sua identidade sem a ajuda nem o apoio do idem.
Tal discussão divide-se em dois estudos. O primeiro deles, propõe a ideia de identidade psíquica que podemos opor a de identidade corporal. E a identidade corporal que põe em xeque a noção de uma existência invariável de nossas vidas.
O segundo estudo Ricouer mostra-se refratário às três crenças apresentadas por Parfit. A primeira trata-se de um argumento reducionista da identidade, uma vez que exclui o fato de sermos entidade existindo separadamente. A segunda é a de que a questão da identidade é sempre determinável. Finalmente, não admite a crítica que o autor faz ao julgamento de importância ligado à questão da identidade.
Ricoeur discute a questão da identidade e tenta resolver o problema da permanência no tempo (caráter + palavra dada) e do paradoxo da mesmidade por meio da dialética do si, a qual, segundo ele, atinge plena expansão através da identidade narrativa.
Referência
Da Silva, Daniela Silva. Disponível em: http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/fale/article/viewFile/5636/4110. Acesso em: 25 nov. 2017.

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