Santo Tomás de Aquino o Boi Mudo da Sicilia- NASCIMENTO

RESUMO 
NASCIMENTO, Carlos Arthur R. Santo Tomás de Aquino o Boi Mudo da Sicilia. São Paulo: Educ, 1992. 

Tomás de Aquino nasceu em 1225 no castelo de Roccasecca, no condado de Aquino, pertencente ao reino da Sicília". Naquela época, vários progressos técnicos aumentaram a expectativa de vida das pessoas. Seu pai queria que seu filho fosse abade, mas, em Nápoles, Tomás estudou as artes liberais e decidiu tornar-se dominicano, por volta de maio de 1244. Essa decisão não agradou a sua mãe, já que aquela ordem professara pobreza evangélica e rompera com as economias e espiritualidades aristocráticas. A nova forma de vida religiosa, representada pelos mendicantes, situava-se no contexto da passagem de uma cultura rural e feudal para uma cultura urbana e burguesa. Representava uma versão ortodoxa de um movimento de renascimento evangélico, que frequentemente acabava em heresias. 
Em Colônia começava a ser organizado um centro internacional de estudos sob a direção de Alberto Magno, que pretendia pôr ao alcance dos latinos a enciclopédia do saber elaborada pelos gregos, árabes e judeus (Aristóteles, Avicena e Averrois). Ai, Tomás fez o bacharelado em teologia no ano de 1252, sendo designado para atuar em Paris (centro intelectual da cristandade latina).  Na primeira década do século XIII, professores e estudantes organizaram a "universidade".  
Tomás comentou as sentenças de Pedro Lombardo, escreveu duas pequenas monografias (o princípio da natureza e O ente e a essência): base da sua ontologia. Tomás resolvia as questões de maneira mais clara, com novos argumentos. Também data dessa época um pequeno escrito: Contra os que atacam o culto divino e a religião, 1256. Em 1256, Tomás recebeu licença para ensinar e foi promovido a mestre. Tornou-se mestre regente em ato, mas foi agregado ao colégio ainda em 1257. Tomás dedicou-se a: (legeredisputare e praedicare). Ler: Comentários.  A disputa: debate que resulto da institucionalização da questão, torneio intelectual. O bacharel deveria responder às objeções e depois o mestre trazia sua determinação. 
No período de 1256-1259, resultou Questões disputadas sobre a verdade: a verdade, graça de Cristo, ciência de Deus, conhecimento dos anjos e dos humanos, e problemas sobre o bem. 
As disputas de tema livre (quodlibet). Existem 12 desse tipo: conhecimento, estado da alma de Cristo durante a paixão, simplicidade divina, eucaristia, ressurreição dos condenados e consciência. "excepcional sucesso de mestre de Tomás se apoiava na grande concentração intelectual. Tomás só interrompe o trabalho por ordem expressa daqueles que detêm autoridade sobre ele".  
No final de 1259 ou começo de 1260, Tomás deixou a França e dirigiu-se à Itália. O capítulo geral da ordem determinara que os jovens estudassem as artes liberais. As obras de Aristóteles foram aceitas na Faculdade de Artes da Universidade de Paris em 1255. De 1259 a 1269, passou na Itália. Ao retornar, residiu no seu convento de origem, em Nápoles. Depois, foi estabelecido no convento de Orvieto até 1265, quando foi nomeado para Roma até 1268. Lembrando que a corte papal se encontrava nesse lugar. Era muito natural que chovessem pedidos e consultas ao já respeitado mestre em teologia. Recebeu-os do Papa e de outras autoridades. Em 1263, fez o Comentário ao Evangelho de são Mateus, para o papa Urbano IV, depois comentou os outros dedicando-os a seu amigo de Paris. Tomás estava descobrindo a teologia grega e tomando consciência de sua importância e da perda que seria não a ter em consideração, restringindo-se à tradição latina. Corrente de ouro. "Contra os erros dos gregos, a fé trinitária"Tomás escreveu uma espécie de catecismo intitulado Os artigos da fé e os sacramentos da Igreja; as razões da fé contra os sarracenos, gregos e armênios.  
Não se deve tentar provar as verdades da fé que ultrapassam a razão, pois isso desvalorizaria a própria fé que excede não só o entendimento humano, mas o dos próprios anjos. Aquele que apresenta a fé cristã não deve querer demonstrá-la, mas defendê-la contra possíveis ataques, pois, como não pode ser provada, por exceder a razão, também nenhum argumento pode ser realmente válido contra ela, por ser verdadeira. (p. 33). 
Em 1264, Urbano IV instituiu a festa do Corpus Christi e Tomás teria se encarregado pelo papa de compor hinos, leituras e orações. Ainda em Orvieto, é levada a termo a Suma contra os gentios. Esta suma apresenta como uma ampla exposição da fé católica e refutação dos erros a ela contrários, professados pelos hereges, infiéis e pagãos. Esta dívida em quatro livros: Deus em si mesmo, a procedência das criaturas a partir de Deus, ordenamento das criaturas para Deus; Trindade, encarnação, sacramentos, ressurreição, glorificação dos corpos e da bem-aventurança eterna. Tomás não sabia grego. No entanto, os interesses ecumênicos de Urbano IV possibilitaram uma familiaridade maior com a literatura teológica do Oriente. 
É provável que estando em Roma, comentasse: Os nomes divinos de são Dionísio. Tomás o cita em suas obras mais de 1.700 vezes. Desde sua volta à Itália, Tomás recebeu como acompanhante e secretário frei Reginaldo de Pipermo, que o acompanhou até seus últimos diasReginaldo compilara a parte final da Suma Teológica (suplemento), após a morte de Tomás. 
O período romano de Tomás (1265) é marcado por obras de consultoria, não faltando algum texto ligado ao ensino e tomando relevo a redação de poderosas obras de síntese. Entre as consultorias assinala-se: O reino ou Governo dos príncipes, endereçado a Hugo II, rei de Chipre, que se via importunado por revoltosos. Expressa na Suma teológica (I. Q.105 a. 1.): "o melhor regime político é aquele que combina a unidade de comando da monarquia, a colaboração dos melhores da aristocracia e a participação de todos, própria da democracia". 
Também escreveu o Comentário das Sentenças; Questões disputadas sobre o poder de Deus. Compêndio de teologia. As mesmas regras de construção foram usadas para a elaboração da Suma e da edificação de algumas catedrais góticas. A intenção de Tomás ao escrever a Suma, indica-se no prólogo: "transmitir o que se refere a religião de modo conveniente à instrução dos principiantes".   
Questão disputada sobre as criaturas espirituais: o homem tem a dificuldade de desligar-se do mundo sensível e da imaginação. Por isso, aqueles que se dedicaram às mais profundas investigações só conheceram respostas em termos de corpos e de princípios materiais. Imaterialidade das criaturas espirituais, a unidade da forma do ser humano em contraposição às correntes agostinianas de pluralidade. Unidade do intelecto em contraposição a Averrois (O comentador), que considerava o intelecto como uma substância imaterial separada dos indivíduos. Segundo ensino em Paris (1266- 1268). Tomás acentua não só seu desprendimento do poder e da glória mundana, mas também seu apreço por um texto patrístico tido como grande valia: são João Crisóstomo. Em 1268, reassume a cátedra de teologia dos estrangeiros em Paris até 1272, por três motivos: recrudesciam os ataques dos mestres seculares contra os mendicantes, a afirmação da unidade da forma do ser humano inquietava a ordem Franciscana, combater uma versão do aristotelismo sustentada por Averróis e que era incompatível com a ortodoxia católica. A Suma Teológica: segunda parte. Comentou linha por linha: Os segundos analíticos, a Física, o Tratado da alma, a Metafísica e a Ética a Nicômaco. Em 1269, Contra a doutrina dos que afastam do ingresso em religião.  
Os pregadores se aplicam principalmente à especulação de onde receberam seu nome e secundariamente à piedade; o Menores, ao contrário. Os pomos da discórdia: questão da unidade da forma e a eternidade do mundo. Para Tomás, não era possível provar, por meio de argumentos absolutos convincentes, que o mundo começou a existir. 
Tomás se encontrava no meio do fogo cruzado, tendo de defender-se de um lado e de outro. Várias de suas teses foram condenadas e a proibição de ensinar as teses, sendo revogada apenas em 1325.  Para Tomás, fazer filosofia não era apenas comentar Aristóteles. A tarefa do doutor cristão consistia, nesse particular, em descer à arena dos próprios aristotélicos e fazer melhor do que eles. Não era suficiente condenar ou ignorá-los, era preciso compreendê-los, refutar seus erros e servir-se de suas indicações para construir um pensamento mais sólido. A refutação e reconstrução. Tomás era considerado como um entendido em "todas as coisas que podem ser conhecidas e mais algumas outras...".  
No ano de 1272, foi lhe confiada a tarefa de criar um estúdio geral de teologia, tendo liberdade de escolher o local, as pessoas e número de estudantes. Decidiu Nápoles. Comentou parte dos Salmos, sobre o céu, sobre a geração e a corrupção sobre os meteoros. Terceira parte da Suma teológica. Desenvolveu atividade de pregador sobre o Credo e Pai Nosso. 
"Todas as vezes que ele se punha a estudar, disputar, ensinar, ele recorria antes à oração, pedindo com lágrimas abundantes poder penetrar os segredos da verdade". 
No dia 6 de dezembro, Tomás passou por uma extraordinária transformação durante a celebração da missa. A partir de então não quis mais escrever e até se desfez de seu escritório. "Não posso mais; tudo o que escrevi me parece palha em comparação com o que vi; chegou o momento de parar de escrever; espero que chegará logo o momento de parar de viver". Estas palavras revelam o colapso mental e a sua crise de absenteísmo. Convocado pelo papa Gregório X para o Concílio de Lyon, empreendeu caminho, mas ficando gravemente doente, morreu a 7 de março de 1274. 
Como um típico universitário do século XIII, Tomás de Aquino falou muito pouco de si mesmo. O que importa é a verdade da coisa. Ainda assim, em uma ocasião, permitiu-se deixar entrever suas opções pessoais. É quando no início da Suma contra os gentios, ousará assumir o ofício de sábio para apresentar a verdade professada pela fé católica e refutar os erros a ela opostos. Toda sua vida foi dedicada inteiramente a responder quem é Deus. Contemplar a Deus e transmitir o que contemplou. A filosofia e a teologia já eram primas pobres, mas Tomás não parece ter tido jamais qualquer dúvida quanto a seu destino.  
Suma Teológica pode ser considerada como uma tríplice resposta à pergunta do menino Tomás no Monte Cassino. A teologia tem como objeto Deus, considerado em si mesmo. Dessa consideração deriva as três partes: Deus em si e a procedência das criaturas, o movimento da criatura racional para Ele, o caminho histórico do movimento da humanidade para Deus, isto é, Cristo. A segunda parte é muito extensa e por isso está dividida em duas partes. A primeira parte da Suma contém 119 questões; a primeira parte da segunda parte, 114 questões; a segunda parte da segunda parte, 189; a terceira parte, 90, por Tomás, e o resto 100. Cada questão é subdividida em artigos. Há sempre uma pergunta inicial que dá margem a duas respostas opostas. Seguem alguns argumentos ou objeções, contrárias à tese que Tomás pretende sustentar. Depois vem "em sentido contrário", citação de uma autoridade que representa a opinião de Tomás. Esta é apresentado numa corta explicação. 
A primeira parte1 Essência divina (q. 2-26). 2 Distinção das pessoas (q. 27-43). 3 Procedência das criaturas (q. 44- 119). Esta primeira parte contém muito das doutrinas referente à metafísica. Como teólogo filosofante ele elaborou conceitos filosóficos altamente originais com o propósito de construir sua teologia. Integra os transcendentais (unidade, verdade e bondade) e formula uma nova concepção de causalidade e de participação. A segunda parte trata do ser humano, não na medida em que é obra do poder divino (primeira parte), mas na medida em que ele é também o princípio de suas obras por ser dotado de livre arbítrio e domínio de suas obras. O homem se autoproduz porque ele reproduz na sua escala o que é o próprio Deus: Criador. 
Tomás vê toda a história humana polarizada por Deus. Este finaliza a atividade humana como objeto de conhecimento e amor e constitui a felicidade, a suprema realização. A felicidade última é a contemplação da essência divina. Considera as ações humanas em geral e em particular: Em geral: as ações em si mesmas e os princípios que permitem realizá-las. As ações comuns, as paixões. Existem princípios internos do ser humano, hábitos: bons (virtudes) e maus (vícios). As virtudes: intelectuais, morais e teologais. Em particular: fatores externos ao homem. Dentro do mesmo tratado, considera-se a virtude do dom que lhe corresponde, os vícios opostos a ela e os preceitos afirmativos e negativos que lhe dizem respeito. 
As questões 57-122: a. A justiça em si mesma. B. As partes da justiça. C. O dom da piedade. D. Os preceitos da sagrada escritura. Tomás de Aquino faz uma ontologia da graça, não faz moral de estabelecer os limites do que é permitido ou proibido, do lícito e do ilícito. Sua preocupação fundamental é descrever um organismo vivo que permite ao ser humano agir como tal e como cristão. Na terceira parte faz uma consideração do próprio Salvador de todos e dos seus benefícios prestados ao gênero humano. O salvador em si (encarnação e aquilo que foi feito e sofrido por Ele), os sacramentos e o fim da vida imortalPelo menos pela aparência, essa parte é mais estritamente teológica. 
Tomás de Aquino nunca pretendeu formular um sistema filosófico independente, e se sua Suma de Teologia tinha pretensão de acabamento, Deus e as circunstâncias se encarregaram de não o permitir. O fato pensamento de Tomás de Aquino não teve chance histórica do final do século XIII até o XVI, é somente quando surgem pensadores de grande envergadura, que se colocaram na escola de Tomás. No século XVIII e XIX, a impressão é que o pensamento católico saiu de cena. Foi então que, em 1879, Leão XIII, recomendou o estudo de Santo Tomás. Pio X o declara Doutor angélico. Bento XV, em 1917, com o CDC afirma que o ensino de filosofia e teologia deve ser segundo o método de Tomás de Aquino. Pio XI. Pio XII. Enfim, Tomás de Aquino não foi a única vítima do preconceito a favor.  

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